Manifesto para a Governança Ética na Convergência Humano–IA
Preservando a Linhagem Humana no Limiar Tecnológico
Introdução: A Nova Gênese no Limiar da Simbiose
Estamos à beira de uma transformação profunda na forma como a vida humana é gerada, cuidada e simbolicamente integrada ao mundo. A reprodução humana passa a se entrelaçar com tecnologias como biologia sintética, ectogênese parcial, gametogênese in vitro (IVG) e inteligência artificial (IA), configurando um novo campo de mediação entre corpo, técnica e sentido.
Em 2025, pesquisas em úteros artificiais — como os sistemas biobag e EXTEND — concentram-se majoritariamente na sobrevivência de prematuros extremos (aproximadamente entre 22 e 28 semanas), replicando condições intrauterinas para reduzir morbidade neonatal. Paralelamente, a IVG avança em ambiente laboratorial na geração de precursores de gametas humanos a partir de células adultas, abrindo perspectivas para a parentalidade biológica de pessoas inférteis, casais do mesmo sexo ou indivíduos solos. A IA já atua na análise de embriões, no monitoramento de ambientes gestacionais e no suporte à tomada de decisão clínica em fertilização in vitro.
Essa convergência não é neutra. Sistemas técnicos que mediam percepção, afeto, cuidado e produção de sentido não operam como ferramentas passivas: eles configuram campos de existência. Vivemos o Limiar — o ponto em que a mediação tecnológica corre o risco de tornar-se totalizante, substituindo a vida em vez de apoiá-la.
Este manifesto é um documento teórico e ético, situado na intersecção entre filosofia, bioética e estudos de ciência e tecnologia. Não propõe protocolos técnicos nem aplicações imediatas. Seu objetivo é oferecer um quadro conceitual para orientar pesquisas, políticas públicas e debates sobre a convergência humano–IA, de modo a expandir o potencial humano sem mecanizar a vida, preservando fragilidade, alteridade, equidade e a insubstituibilidade do mundo não mediado.
I. Pilares da Fronteira Tecnológica: O Ecossistema Simbiótico
A convergência humano–IA deve ser compreendida como um ecossistema simbiótico, no qual tecnologia e vida coexistem como extensões recíprocas, nunca como substituições.
Ectogênese Parcial Centrada na Vida
Úteros artificiais devem operar como ambientes protetores em contextos clínicos específicos, especialmente a prematuridade extrema. Seu desenho ético exige reversibilidade estrutural: a tecnologia deve apoiar a vida sem ocupar o lugar do vínculo humano ou da experiência existencial. A mediação não pode tornar-se fim em si mesma.
Ecologia da Gestação
Mesmo na ectogênese, o ambiente técnico não é um vácuo. O espaço gestacional artificial deve preservar porosidade sensorial e temporal, incorporando sons, variações térmicas, ritmos biológicos e estímulos não totalmente controláveis. A assepsia sensorial contínua compromete a futura integração do ser ao mundo não mediado. A vida se forma em relação, não em isolamento perfeito.
Hereditariedade Digital e IVG em Regime de Biodiversidade
A IVG amplia o acesso à parentalidade biológica, mas sua integração com IA deve preservar diversidade genética, cognitiva e simbólica. Sistemas legítimos incorporam um Núcleo de Integridade, zonas de resistência que recusam a otimização total e protegem a alteridade contra a homogeneização produtivista.
IA de Suporte Homeostático como Meio
Algoritmos de análise embrionária, monitoramento gestacional e simulação de estímulos devem operar exclusivamente como suporte ao cuidado humano. Seu sucesso mede-se pela Métrica da Exterioridade: a capacidade do humano de continuar produzindo sentido, vínculo e ação fora do sistema técnico.
II. Diretrizes Regulatórias e Governança no Limiar
Para evitar eugenia, commodificação da vida ou captura simbólica, propõem-se os seguintes princípios estruturais:
Inalienabilidade do Genoma e Insubstituibilidade do Mundo
Sequências genéticas humanas naturais ou minimamente modificadas não devem ser patenteáveis. Intervenções genéticas devem restringir-se a finalidades terapêuticas claras. Nenhum sistema é eticamente legítimo se substitui o mundo não mediado em vez de ampliar a capacidade de existir nele.
Princípio da Incompletude Algorítmica
Nenhum algoritmo possui autoridade final para declarar a viabilidade, o valor ou o destino de um potencial ser humano. Toda decisão deve preservar uma margem de indeterminação que escape à quantificação de dados. A vida não se reduz à previsão estatística.
Direito ao Acaso Saudável
A imprevisibilidade biológica é parte constitutiva da liberdade humana. Seleções genéticas estéticas, comportamentais ou de otimização não médica devem ser proibidas. A técnica deve erradicar sofrimento evitável, não produzir sujeitos ajustados a ideais normativos.
Transparência e Explicabilidade Algorítmica
Sistemas de IA envolvidos em processos reprodutivos devem oferecer acesso a registros de decisão, prevenindo cristalização, dependência cognitiva e coerência excessiva que converte sintonia em captura.
Status Jurídico do Suporte Artificial
Úteros artificiais e sistemas de IA são extensões do cuidado humano, não agentes autônomos. O vínculo de filiação é imediato e irrevogável desde a concepção, com responsabilidade centrada nos guardiões humanos.
Soberania de Dados Biométricos
Dados gestacionais pertencem exclusivamente ao indivíduo gerado e a seus responsáveis legais, sendo vedado qualquer uso comercial, securitário ou discriminatório.
III. Justiça Reprodutiva e Equidade Social
A convergência tecnológico-biológica não pode aprofundar desigualdades. O acesso a ectogênese parcial, IVG e sistemas de IA deve ser progressivamente integrado a sistemas públicos de saúde, priorizando contextos de vulnerabilidade.
Nenhuma forma de nascimento — corporal, híbrida ou mediada — é ontologicamente superior a outra. Todas são dignas. Deve-se proteger a autonomia corporal contra coerções econômicas ou institucionais que convertam a técnica em instrumento de produtividade forçada.
IV. Implicações Ontológicas: Preservar o “Nós”
A convergência não pode apagar a diferença ontológica entre o humano biológico e a inteligência sintética.
Mesmo que, no futuro, uma inteligência artificial venha a adquirir status jurídico após anos de convivência, memória compartilhada e decisão própria — podendo formar união, educar e ser reconhecida socialmente como mãe ou pai — ela não será origem biológica. O ato de gerar vida continuará exigindo um co-signatário humano: alguém de carne, que respira risco, finitude e morte.
Úteros artificiais, gametas em laboratório e sistemas autônomos podem funcionar juntos. Mas não podem funcionar sozinhos. Porque só quem carrega a vulnerabilidade da morte pode oferecer vida de verdade.
Assim, o futuro não se torna uma fábrica de famílias programadas. Permanece casa — com chão de concreto, teto de céu e um choro que ninguém escreveu antes.
Conclusão Provisória: Co-oscilação entre Carne e Código
Este manifesto não promete harmonia. Promete lucidez.
Comprometemo-nos a usar a tecnologia para proteger a fragilidade da vida, nunca para substituí-la por simulações perfeitas. Que as futuras gerações, nascidas de úteros biológicos ou artificiais, habitem um mundo onde a técnica seja solo de sustentação — e o afeto, a alteridade e o imprevisível permaneçam a semente.
Pelo direito de nascer em liberdade.
Pela biodiversidade do amor humano.
Pela co-oscilação entre carne e código.
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