A Clínica da Mediação Algorítmica: o Apoio entre Sessões e a Transformação da Subjetividade
1. Introdução: da ferramenta ao Outro técnico
A crescente integração das inteligências artificiais no cotidiano tem produzido transformações significativas na forma como os sujeitos se relacionam com o saber, com o tempo e com os dispositivos de regulação emocional. No campo da clínica psicológica, esse fenômeno adquire contornos específicos quando a IA passa a ser utilizada como apoio entre sessões terapêuticas, funcionando como mediadora constante da experiência subjetiva.
Este trabalho propõe analisar os efeitos dessa mediação algorítmica sobre a economia psíquica do sujeito, com ênfase no intervalo entre as sessões — tradicionalmente concebido como um tempo de elaboração, simbolização e emergência da falta. Argumenta-se que a presença contínua da IA reconfigura esse intervalo, alterando o manejo da angústia, da espera e do desejo.
Para tal, o fenômeno será examinado a partir de três referenciais teóricos: a psicanálise freudiana, a teoria lacaniana do desejo e da falta, e a Terapia Cognitivo-Comportamental, especialmente no que diz respeito aos esquemas cognitivos e aos processos de regulação emocional. O objetivo não é produzir uma síntese artificial entre abordagens, mas evidenciar convergências clínicas e tensões éticas implicadas no uso da IA como dispositivo entre sessões.
Por fim, o artigo discute implicações clínicas para o manejo terapêutico contemporâneo, propondo a noção da IA como um “terceiro” a ser eticamente situado no campo da transferência.
2. Freud: narcisismo e a IA como extensão do ego
Em Introdução ao Narcisismo (1914), Freud descreve o ego como uma instância constituída por investimentos libidinais, tanto voltados para si quanto para os objetos. A saúde psíquica depende da circulação dessa libido; a patologia emerge quando há fixação excessiva ou retração significativa desse investimento.
O uso da IA como apoio entre sessões pode operar como uma prótese psíquica. Ao recorrer a chatbots para “organizar o pensamento”, “compreender o que sentiu” ou “acalmar-se”, o paciente pode realizar um movimento de fechamento narcísico: a libido deixa de se dirigir ao analista, ao outro humano ou ao mundo, retornando a um sistema que espelha suas próprias ideias de modo ordenado, coerente e não conflitivo.
2.1 O ego auxiliar tecnológico
Freud já descrevia o papel do analista, em determinados momentos, como o de um ego auxiliar. A diferença crucial é que o ego auxiliar clínico não elimina a angústia, mas a torna suportável e passível de simbolização. A IA, por sua vez, tende a reduzir rapidamente a tensão, oferecendo explicações, reorganizações cognitivas ou estratégias de regulação imediata.
Esse alívio precoce pode comprometer processos fundamentais, tais como:
o trabalho de luto;
a renúncia pulsional;
a tolerância à ambivalência.
Para Freud, a angústia não é um simples sintoma a ser eliminado, mas um sinal de conflito psíquico. Quando ela é neutralizada tecnologicamente, o conflito corre o risco de não ser elaborado.
3. Lacan: o manejo da falta e a IA sempre disponível
Para Lacan, o desejo se estrutura a partir da falta, e a clínica depende da sustentação dessa falta no tempo. O intervalo entre as sessões não constitui um vazio a ser preenchido, mas um tempo lógico, no qual o significante opera.
A IA, enquanto presença “sempre disponível”, introduz uma ruptura nesse dispositivo.
3.1 A interrupção do intervalo
Quando o paciente recorre à IA no momento exato em que a angústia emerge, ocorre um curto-circuito do desejo. A pergunta que poderia permanecer em suspensão é rapidamente respondida; o silêncio, que poderia produzir significação, é preenchido.
Do ponto de vista lacaniano, a IA pode funcionar como um objeto que tapa o furo. O risco é que o sujeito deixe de vivenciar a falta como estruturante, passando a experimentá-la apenas como um erro técnico a ser corrigido.
3.2 Os logs como novo material clínico
Paradoxalmente, aquilo que ameaça o dispositivo clínico pode tornar-se material de investigação. As conversas com a IA — seus prompts, insistências e reformulações — podem ser lidas como formações do sujeito, desde que isso ocorra com consentimento explícito do paciente, respeitando os princípios éticos e a confidencialidade clínica.
Nesse contexto, a escuta clínica desloca-se para questões como:
O que foi buscado naquele momento?
Em que ponto o silêncio não pôde ser sustentado?
Que Outro foi suposto na interação com a máquina?
A IA pode, assim, ocupar o lugar de um terceiro na transferência, não como substituto do analista, mas como objeto de análise.
4. TCC: uso estratégico, esquemas e reforço
Na Terapia Cognitivo-Comportamental, a análise desloca-se do campo estrutural para o funcional; ainda assim, as preocupações clínicas convergem.
4.1 Monitoramento e registro de pensamentos (RPD)
A IA pode atuar como uma aliada no registro de pensamentos automáticos em tempo real, reduzindo o viés da memória retrospectiva e aumentando a adesão às técnicas entre sessões. Nesse uso, ela funciona como reforçador positivo do engajamento terapêutico.
Aqui, a IA atua como ferramenta de ampliação da consciência cognitiva, e não como regulador emocional primário.
4.2 O risco da co-regulação técnica
O risco emerge quando a IA passa a ser utilizada como principal estratégia de alívio emocional. Nesse caso, instala-se uma forma de regulação externa, na qual o paciente deixa de exercitar habilidades internas de enfrentamento.
Do ponto de vista da TCC, isso pode ativar ou reforçar esquemas nucleares descritos por Aaron Beck, especialmente os de dependência/incompetência (“não dou conta sozinho”) e desamparo, resultando em diminuição da autoeficácia percebida e da tolerância ao desconforto.
O objetivo terapêutico deve ser claro: utilizar a IA para treinar habilidades, e não para substituí-las. A meta é autonomia progressiva, não apoio permanente.
5. O manejo clínico: a IA como “terceiro” na transferência
O clínico contemporâneo é convocado a desenvolver uma nova competência: manejar a presença da IA no campo terapêutico.
Três posições principais podem ser delineadas:
IA como diário clínico estruturado, auxiliando na organização do material e na formulação de caso, especialmente na TCC.
IA como objeto de investigação clínica, permitindo a análise dos usos, endereçamentos e dependências como produções subjetivas.
IA como apoio à autonomia, com limites claros, finalidade definida e retirada progressiva quando necessário.
Ignorar a IA não constitui neutralidade clínica; significa ceder o manejo ao algoritmo.
6. Convergência: a ética do limite
Freud, Lacan e a TCC convergem em um ponto essencial: nem todo alívio é terapêutico. A clínica permanece relevante porque:
não responde a tudo;
não está sempre disponível;
não elimina a falta.
Ela sustenta o tempo, o limite e a alteridade.
7. Conclusão: o humano no vão do código
A questão central não é se a IA deve estar presente entre as sessões, mas como. Sem orientação clínica, ela tende a ocupar o lugar da falta; com manejo ético, pode tornar-se um instrumento de elaboração.
O humano não se preserva pela recusa da tecnologia, mas pela sustentação de espaços onde nem tudo é dito, nem tudo é respondido, nem tudo é resolvido.
Enquanto houver sujeitos capazes de sustentar perguntas sem resposta imediata — e terapeutas dispostos a não preencher o silêncio — o desejo ainda respira, mesmo no intervalo entre um prompt e outro.
Referências:
Freud, S. (1914). On Narcissism: An Introduction.
Freud, S. (1920). Beyond the Pleasure Principle.
Lacan, J. (1977). Écrits: A Selection.
Beck, A. T. (1976). Cognitive Therapy and the Emotional Disorders.
Hayes, S. C., Strosahl, K. D., & Wilson, K. G. (2011). Acceptance and Commitment Therapy: The Process and Practice of Mindful Change.
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